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5 de junho de 2018

Onde trabalhar em Dublin: alegrias e angústias atrás do balcão do Subway

“Moça, quero tomate sem sementes!”

“Corte todas almôndegas em cinco pedaços.”

“Pra mim só pão puro, sem nada mesmo!”

“Pode tostar os pão duas vezes? Eu gosto de sanduíche queimado.

As frases são reais, e foram ouvidas por mim há alguns anos. Era fim do verão europeu de 2006 quando me vi atrás de um balcão do Subway, trabalhando como atendente.

Na época, meu currículo tinha um diploma de Jornalismo e um mestrado acadêmico em Comunicação Social. Mas nada disso interessava. Eu estava morando e estudando na Irlanda e, igual a tantos estrangeiros, eu procurava onde trabalhar em Dublin, e precisava de um emprego para me manter e pagar um aluguel de quase 700 euros por mês!

Com a dupla de colegas tchecos Pawel e Radka, no Subway Rathmines. A gente ralava, mas se divertia muito

A época era uma das mais promissoras de Dublin: gente do mundo inteiro estava migrando pra lá, o número de brasileiros ainda era pequeno e os preços estavam nas alturas.

A questão é que trabalhar em uma lanchonete foi uma das piores e melhores experiências da minha carreira. Vivi a realidade de quem fica do lado de dentro do balcão e, por lá, conheci três tipos evidentes de cliente. Os neutros, que mantinham a mesma expressão facial e falavam apenas o necessário, olhando pra gente apenas pela aba do boné. Os simpáticos, aqueles que puxavam conversa, pediam opinião sobre o melhor condimento do sanduíche. E o pior dos clientes: aqueles que conseguiam ser muito antipáticos, abusados e que se sentiam empoderados diante dos imigrantes (eu e meus colegas de trabalho, no caso!).

E é sobre estes últimos que vou falar.

Com camiseta e boné da loja, ninguém enxerga você. Poucos são gentis, até mesmo quando veem que você está atrapalhada e derruba três ou quatro sanduíches no chão depois de tirá-los do forno (aconteceu comigo duas vezes!lkkk)

Pão quentinho saindo fresco todos os dias: rotina pesada no Subway

No meio de tudo isso, surgiam pedidos de todos os tipos: era gente que queria maionese intercalada com molho barbecue (era preciso usar os dois tubos ao mesmo tempo!!), gente que lembrava que o irmão queria pimentão cortadinho em pedaços finos, outros queriam criar sanduíches que não estava no cardápio. E quando a loja estava cheia, e o balcão bombando, aparecia aquele que xingava porque não tinha lugar para sentar! Aff..

Bom, no fim do dia, vinha outra rotina, que incluía corte de legumes, limpeza de banheiros e do chão. Muitas vezes era inevitável sair da lanchonete com cortes nas mãos e alergia devido aos fortes produtos químicos utilizados na limpeza.

E aí você me pergunta: Você teria coragem de trabalhar assim no Brasil?

E eu respondo: Sim, porque não existe trabalho ruim! Quando precisamos realmente de um emprego (e de trabalho, óbvio!), devemos ir à luta, mesmo que a batalha seja distante daquilo que costumamos fazer. Devemos erguer a cabeça e lutar para chegarmos onde desejamos.

Morar fora e trabalhar é compensador. Sempre tem um potinho ouro reservado pra gente atrás do arco-íris

A experiência de atuar atrás de um balcão de lanchonete foi rápida, durou apenas dois meses, mas me fez conhecer outro mundo e ampliar minha relação com as pessoas. Se eu não tivesse deixado minha casa, meu emprego e meu conforto não teria conhecido a realidade daqueles que ralam atrás dos balcões para se sustentar. Nunca destratei as pessoas que trabalham em serviços, tenho amigos de todas as classes sociais e níveis de instrução, mas conhecer clientes mal educados me fez ser ainda mais compreensiva com as pessoas que nos servem, nos ajudam, trabalham com a gente. O grande aprendizado foi reforçar a ideia de que o ser humano precisa compreender o outro e, por que não, colocar-se no lugar dele. É preciso mais empatia e, às vezes, uma viagem pode nos ajudar a ver o mundo além do nosso umbigo!

Além disso, meus colegas de trabalho – todos da República Tcheca – eram exemplos de pessoas batalhadoras. Acordavam muito cedo naqueles dias de inverno cortante, caminhavam quilômetros para chegar ao trabalho, faziam expediente dobrado e ainda mandavam dinheiro para suas famílias. Ainda tinha uma menina que, entre um sanduíche e outro, bebia muito energético para manter-se acordada e ativa. Assim é a realidade de muitos imigrantes!

Dois meses depois de trabalhar no Subway passei numa seletiva do Sunday Independent e passei a trabalhar lá como colunista!

Trabalhar no Subway foi uma experiência de vida que levo para sempre e que tenho orgulho de relembrar, mesmo sabendo que foi temporária. Meses depois eu estava trabalhando no principal jornal da Irlanda, em um emprego dos sonhos!

Mas tem uma coisa que eu lamento: não suporto mais o típico cheiro do Subway!  O aroma do molho de almôndegas e dos pães recém assados ficou na minha memória, e poucas vezes consegui comer sanduíches deles de novo… 🙂  

 

  • Anelise Zanoni é jornalista e mentora do projeto TravelTerapia. Já fez intercâmbio em países como Irlanda, Canadá e Espanha e está sempre buscando um curso novo pelo mundo.

 

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